Por Ricardo Ferraz, repórter enviado para especial sobre infância para o Jornal da Cultura
Basta analisar as estatísticas oficiais para perceber que o Brasil avançou consideravelmente na proteção da infância. Embora o país esteja longe do ideal, não se pode desconsiderar o fato de a mortalidade de crianças com até um ano de idade ter caído 30,6% , entre 2000 e 2008 e de a subnutrição ter sido reduzida em 62% entre 2003 e 2008, fazendo com que o país alcançasse, antes do prazo previsto, uma das metas do milênio proposta pela ONU. Também é fácil reconhecer avanços na universalização do ensino (96% das crianças estão na escola) e na erradicação do trabalho infantil (diminuição de 19% nos casos de crianças trabalhando entre 2004 e 2009).
Quando deixei São Paulo rumo às regiões Norte e Nordeste para a realização de um especial para a TV Cultura sobre a infância no Brasil, esperava que esses avanços estivessem evidentes. De fato, é possível reconhecer que alguns programas governamentais, em especial o Bolsa Família, trouxeram melhorias para as famílias atendidas. No entanto, muitas de nossas mazelas ainda persistem por causa de um fator que não aparece nas estatísticas, nem é medido pelos órgãos oficiais: a falta de informação.
Na cidade de Cabrobó, interior de Pernambuco, em uma reserva indígena da tribo Truká, pude conhecer uma família com três crianças que não tinha nada além de um punhado de feijão para comer. Os pais e as crianças sobreviviam graças à ajuda da avó, aposentada, que lhes fornecia alguma comida. A família estava inscrita no Bolsa Família, mas recebia pouco mais de cem reais. Isso porque apenas um filho tinha Certidão de Nascimento. Sem a comprovação da existência de duas outras crianças, o recurso recebido era bem menor.
Na mesma tribo, os técnicos do Programa Criança com Todos os Seus Direitos, mantido pela Fundação Abrinq – Save the Children, identificaram crianças com anemia. A doença não se devia à falta de dinheiro para colocar comida na mesa, e sim a uma alimentação tomada por comida industrializada, de baixo valor nutricional. As mães pagavam mais caro para encher a geladeira de produtos anunciados na televisão, acreditando assim promover o melhor para seus filhos.
Em Ouricuri e Petrolina, também em Pernambuco, conheci mães que perderam seus filhos logo depois de nascer. Eram comuns histórias de mulheres que entraram em trabalho de parto, mas não receberam assistência médica adequada. O que chama a atenção é que elas preferiram dar ouvidos aos médicos e enfermeiros mal capacitados do que prestar atenção nos sinais do próprio corpo.
Em Juazeiro do Norte e Porteiras, no Ceará, pude conversar com pais de crianças que trabalhavam. Mais que uma necessidade de complementação da renda, tratava-se de uma questão cultural. Os pais acreditavam que as crianças, ao trabalharem, estavam “no caminho certo”.
Dizer que a solução para o problema da falta de informação passa pela educação é chover no molhado. Não necessariamente a educação formal, dos conteúdos que se aprendem na escola. O desafio é fazer as famílias saberem de seus direitos, transformando pais e mães em cidadãos. Se o Brasil quiser avançar de fato na proteção da infância, terá de investir nesse aspecto que não é medido em estatísticas, mas é fundamental para a transformação da realidade.
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