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Archive for novembro \08\UTC 2011

Por Ricardo Ferraz, repórter enviado para especial sobre infância para o Jornal da Cultura

Basta analisar as estatísticas oficiais para perceber que o Brasil avançou consideravelmente na proteção da infância. Embora o país esteja longe do ideal, não se pode desconsiderar o fato de a mortalidade de crianças com até um ano de idade ter caído 30,6% , entre 2000 e 2008 e de a subnutrição ter sido reduzida em 62% entre 2003 e 2008, fazendo com que o país alcançasse, antes do prazo previsto, uma das metas do milênio proposta pela ONU. Também é fácil reconhecer avanços na universalização do ensino (96% das crianças estão na escola) e na erradicação do trabalho infantil (diminuição de 19% nos casos de crianças trabalhando entre 2004 e 2009).

Quando deixei São Paulo rumo às regiões Norte e Nordeste para a realização de um especial para a TV Cultura sobre a infância no Brasil, esperava que esses avanços estivessem evidentes. De fato, é possível reconhecer que alguns programas governamentais, em especial o Bolsa Família, trouxeram melhorias para as famílias atendidas. No entanto, muitas de nossas mazelas ainda persistem por causa de um fator que não aparece nas estatísticas, nem é medido pelos órgãos oficiais: a falta de informação.

Na cidade de Cabrobó, interior de Pernambuco, em uma reserva indígena da tribo Truká, pude conhecer uma família com três crianças que não tinha nada além de um punhado de feijão para comer. Os pais e as crianças sobreviviam graças à ajuda da avó, aposentada, que lhes fornecia alguma comida. A família estava inscrita no Bolsa Família, mas recebia pouco mais de cem reais. Isso porque apenas um filho tinha Certidão de Nascimento. Sem a comprovação da existência de duas outras crianças, o recurso recebido era bem menor.

Na mesma tribo, os técnicos do Programa Criança com Todos os Seus Direitos, mantido pela Fundação Abrinq – Save the Children, identificaram crianças com anemia. A doença não se devia à falta de dinheiro para colocar comida na mesa, e sim a uma alimentação tomada por comida industrializada, de baixo valor nutricional. As mães pagavam mais caro para encher a geladeira de produtos anunciados na televisão, acreditando assim promover o melhor para seus filhos.

Em Ouricuri e Petrolina, também em Pernambuco, conheci mães que perderam seus filhos logo depois de nascer. Eram comuns histórias de mulheres que entraram em trabalho de parto, mas não receberam assistência médica adequada. O que chama a atenção é que elas preferiram dar ouvidos aos médicos e enfermeiros mal capacitados do que prestar atenção nos sinais do próprio corpo.

Em Juazeiro do Norte e Porteiras, no Ceará, pude conversar com pais de crianças que trabalhavam. Mais que uma necessidade de complementação da renda, tratava-se de uma questão cultural. Os pais acreditavam que as crianças, ao trabalharem, estavam “no caminho certo”.

Dizer que a solução para o problema da falta de informação passa pela educação é chover no molhado. Não necessariamente a educação formal, dos conteúdos que se aprendem na escola. O desafio é fazer as famílias saberem de seus direitos, transformando pais e mães em cidadãos. Se o Brasil quiser avançar de fato na proteção da infância, terá de investir nesse aspecto que não é medido em estatísticas, mas é fundamental para a transformação da realidade.

Confira o especial Crianças do Brasil, clique aqui.

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Não dá para banalizar a “palmadinha” como recurso de educação. Crescer ouviu pais e especialistas para traçar essa linha que separa o que pode-se imaginar como educativo da real agressão: é tão tênue que praticamente inexiste

Por Ricardo Ferraz

Albertina (nome fictício) perdeu as estribeiras quando viu a filha de 3 anos brigar com uma prima da mesma idade. Sem tentar conciliar o conflito, agarrou a criança pelo braço e saiu arrastando-a pela casa. O castigo aumentou quando Albertina percebeu que a menina havia feito xixi na calça. Passou então a dar palmadas nas pernas dela e a perguntar aos berros: “Por que você fez isso?”. Só parou quando a filha respondeu, apavorada: “Eu estava com medo, mamãe!”. A resposta desarmou a agressividade da mãe e transformou-a em dor, culpa, remorso e… raiva. Desta vez, de si própria. “Virei um monstro de quem minha filha tem medo. Sou o bicho-papão dela”, conta a auxiliar administrativa.
A atitude de Albertina é mais comum do que se imagina. Muitos pais que reagem a insatisfações dos filhos com castigo físico se vêem frequentemente diante de um dilema: qual o limite ao tentar impor limites?
Uma enquete feita com os nossos leitores no site da CRESCER assustou a todos por aqui. Para a pergunta “você já bateu no seu filho?”, um quarto das 2.241 pessoas que participaram (até o fechamento desta edição) escolheram a alternativa “sim, acho que isso educa”. É um pensamento ainda mais forte do que a porcentagem maior da pesquisa, os 43,2% que disseram “sim, porque de vez em quando perco a cabeça”. No restante, 14,6% negaram, mas deixaram aberta a possibilidade dizendo “não, mas se precisar faço isso” e somente 18,1% disseram que não acreditam nisso como forma de educação.

Ainda que o levantamento não tenha caráter científico, há o que pensar. Ao adotar a palmada, os pais passam a idéia de que a violência física é a maneira de lidar com conflitos e frustrações. Ou seja: você tem de encontrar outras formas de impor limites. Palmada é uma agressão. “Quando o adulto bate no filho, ele está reconhecendo que ficou impotente diante da atitude da criança. Mostra claramente que perdeu o controle de si mesmo e a agressão passa a ser a única maneira de manter o status da autoridade”, diz Célia Terra, professora de Psicoterapia Infantil da Psicologia da PUC-SP. Testar os limites dos pais é um comportamento típico que faz parte do aprendizado da convivência em família. Embora não seja fácil, os adultos devem lidar com as manhas com carinho. “Pais devem proteger os filhos. Não só do mundo exterior, mas das emoções que eles ainda não são capazes de controlar”, diz Célia Terra.

Pai é para proteger
Um levantamento, realizado desde 1996 pelo Laboratório de Estudos da Criança do Instituto de Psicologia da USP (Lacri), demonstra que, muitas vezes, o que algumas pessoas entendem como educação ganha o caráter de abuso. O instituto mapeou as ocorrências de violência física contra crianças e adolescentes em órgãos como Delegacias da Mulher, Conselhos Tutelares, hospitais e escolas. Em 2007, foram cerca de 3 mil. Os coordenadores do estudo acreditam que os números devem ser ainda maiores, já que grande parte das agressões se esconde sob o manto da vida familiar e não é notificada.
Infelizmente, bater nos filhos é uma questão cultural com raízes históricas no Brasil. “Essa prática foi aqui introduzida pelos colonizadores, especialmente pelos padres jesuítas”, explica Viviane Azevedo Guerra, pesquisadora do Lacri e co-autora dos livros Palmada já Era e Mania de Bater. Para ela, a chamada “palmadinha educativa” não existe. E um processo de agressão só tende a piorar. “Sabe-se pelos estudos que a aplicação das palmadas pode ir se intensificando ao longo do tempo, chegando até uma violência mais severa. Toda ação que causa dor física em uma criança representa um só continuum de violência”, diz.
Essa espécie de espiral da agressão traz graves conseqüências. Nos casos piores, há dificuldade de relacionamento com adultos e colegas, problemas de aprendizado na escola e até comprometimento físico. A criança vítima dessa prática pode vir a se tornar uma agressora no futuro. “Embora essa situação só exista se, quando criança, ela não teve no lar um ‘amigo qualificado’, ou seja, alguém que a entendesse e tentasse protegê-la desse tipo de violência”, diz Viviane Guerra.

É justamente para tentar mudar esse quadro que alguns especialistas defendem que o Brasil seja um dos países a seguir o exemplo dado pela Suécia em 1979: abolir a palmada por força de lei. Outros 19 países fizeram o mesmo – inclusive nosso antigo colonizador, Portugal. Um projeto de lei nesse sentido aguarda votação no plenário da Câmara dos Deputados desde 2005, depois de tramitar com sucesso por todas as comissões da Casa. O projeto não prevê punições para pais que adotarem o castigo físico, mas faz alterações no Código Civil e no Estatuto da Criança e do Adolescente – o que não é ideal, mas pode dar o devido peso para o assunto e fazer as famílias repensarem suas atitudes. “Atualmente, o Estado Brasileiro dá permissão para que os pais castiguem os filhos fisicamente”, diz a deputada Maria do Rosário (PT/RS), autora do projeto. “O que nós queremos é um estatuto que coloque a criança em pé de igualdade com os adultos.”

Proibir por lei ou conscientizar?
Há quem duvide da efetividade da medida. “O mais importante é conscientizar as famílias de que elas têm de acolher os filhos. Nesse sentido, ampliar a rede de proteção para as crianças, garantindo o acesso à informação aos pais, é muito mais importante”, afirma Marta de Toledo, promotora da Infância e da Juventude do Ministério Público paulista.
Acolher. Se o papel dos pais é proteger seus filhos, amá-los independe dos momentos de crise. Sim, eles nos tiram do sério. E, sim, na hora da bronca, parece que deixamos as crianças infelizes. Mas colocar os limites e se controlar nessas situações está incluso no pacote “educar”.

Na hora do seu limite
Algumas dicas podem ajudar na hora de contornar situações capazes de despertar os instintos mais primitivos. Veja o que dizem os especialistas ouvidos por CRESCER:

Compreensão: Crianças aprendem as regras de acordo com o convívio. Testar limites faz parte desse aprendizado e os pais precisam ter uma certa flexibilidade na hora de reprimir os comportamentos indesejados. Autoridade não é autoritarismo.
Clareza nos limites: Não se deve reprimir uma atitude e, logo em seguida, permiti-la.Muitos pais esticam os limites até eles se tornarem insuportáveis. Só se dão conta disso quando batem na criança.
Bom humor: Transformar a manha em brincadeira pode ser uma boa saída. Logo a criança deixa aquele comportamento de lado.
Conter a agressividade com afeto: Abraçar o filho nos ataques de fúria pode ajudá-lo a se acalmar. Em seguida, os pais devem ser firmes e dizer em voz baixa que aquele comportamento é inadequado.
Procurar ajuda: Se os momentos em família estão virando uma guerra campal, um psicólogo pode ajudar a torná-los mais harmoniosos.

Cinco razões para não bater nos filhos
• Pais que adotam a palmada passam a mensagem de que os problemas podem ser resolvidos na base da força física.
• Se a criança já não responde da mesma forma às palmadas, castigos físicos cada vez mais severos podem ter início.
• Quem apanha tem mais chance de se tornar um agressor.
• Nos casos mais graves, a criança pode desenvolver dificuldade de aprendizagem, postura de medo em relação aos pais e seqüelas físicas.
• Palmada não educa. Sem diálogo a criança fica sem entender porque não deve repetir o comportamento.

Revista Crescer

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