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Archive for abril \16\UTC 2012

Verônica Bezerra*

A educação é uma maneira de criar oportunidades para que as pessoas tomem posse da condição humana. Por isso mesmo não acontece exclusivamente no interior das escolas, indo posicionar-se bem além dos seus limites.

As escolas, é verdade, realizam um trabalho essencial. Acolhem crianças e jovens com o propósito de torná-los melhores. Para tanto, elegem conteúdos organizando-os numa grade. Os cartesianos acham essa grade rígida e clara; para muitos outros é a torturante missão de encaixar saberes em tempos obrigatórios. Em ambos os casos vale a observação de Guimarães Rosa: “O mais importante e bonito do mundo é isto; que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam”. Não é à toa que a palavra currículo significa caminho da vida, sentido, rota de uma pessoa.

Houve um tempo em que quantidades de conteúdos eram depositadas na cabeça das crianças com a expectativa de que reproduzissem, em flash back, lotes de palavras, mesmo aquelas não compreendidas. Era imperioso dizer para que o professor constatasse o “aprendido”. Repetir era então uma competência digna dos melhores alunos! (Deter conhecimentos enciclopédicos ainda hoje é um sinal que impressiona muito).

Para alcançar essa proeza a memória é um recurso valioso. Gasta-se um imenso estoque de fósforo para ativar a ‘central de devolução’ em episódios conhecidos como provas. Diferentemente da prova do cozinheiro essa manobra não inclui testar qualquer sabor, muito menos a possibilidade de fazer ajustes caso o ponto esteja aquém ou além do desejado. É preciso acertar a receita de primeira. Com o tempo, infelizmente, a meninada também aprende a comer prato frio, sem sal, sem açúcar. O paladar vira uma categoria caduca, fora de moda, não há tempo para ela. Diante das provas, em geral, é preciso desativar alguns sentidos para super privilegiar outros. Não há como ser bom sendo “simplesmente” normal.

No mundo da hiper competitividade a vida inteligente faz seus ajustes. As escolas já não sabem, por exemplo, o que fazer com os hiperativos. Para eles, os médicos receitam Ritalina. Onde estão os professores hiperativos? E os médicos? O que está sendo receitado para a sociedade hiperativa?

 O professor Rubem Alves declarou ter aprendido com uma criança que relógios e campainhas são artifícios para obrigar o pensamento a fazer ordem unida. Toca a campainha: é hora de pensar matemática, 45 minutos pensando matemática. Toca a campainha, é hora de parar de pensar matemática, hora de pensar geografia, 45 minutos pensando geografia, toca a campainha, hora de parar de pensar geografia, hora de pensar literatura…

A lógica escolar determina que a marcação das horas ligue e desligue os “programas” do pensamento que perseguem o currículo. Assim também construímos nossas agendas, nas quais os temas mandam no tempo, com hora certa para começar e acabar.

A agenda do MEC trouxe para ensino fundamental um teste chamado IDEB, por meio do qual as crianças são investigadas no que aprenderam e em quanto tempo conseguiram fazer isso. Há uma matriz de conteúdos significativos embasando essa avaliação; saberes que têm sido alvo permanente da preocupação de educadores do mundo inteiro. Estejam eles em sala de aula ou em conselhos e entidades, o desafio é melhorar os espaços de ensino-aprendizagem, ou de “aprendensinância” como diria Alicia Fernandez, vez que uma coisa não existe sem a outra. O IDEB é uma alternativa para pescar os indícios de uma responsabilidade compartilhada.

Vivemos numa cultura em que a excelência tem um parâmetro: dez! Mas reunir uma dezena não é tarefa simples. No caso do IDEB, cabe ao aluno, em última instância, provar que é excelente. É preciso traduzir em resposta aquilo que recebeu na escola, na família, na sociedade. Ocorre que o binômio aluno-prova além de expressar a condição individual, envolve o concurso de um sistema que impacta diretamente o resultado que aparece. Ou seja, o número que é mostrado pertence ao aluno, mas, com ele, também a escola, os pais, as secretarias de educação e o MEC são aprovados ou desaprovados.

O olhar concentrado na nota cumpre uma etapa desse processo. Em geral, os jornais e todos quanto estão fora das salas de aula fazem disso um alarde. A democracia promove um streaptease escolar! Se quisermos considerar a importância compartilhada, essa superexposição tem seus benefícios. Mas não é justo colocar o aluno sozinho na berlinda. Com ele devem ser examinadas as políticas públicas que orientam o cotidiano escolar. E mais. A responsabilidade de quem atua na escola.

Colocar placas anunciando o IDEB na frente de cada unidade escolar serve para mostrar parte da questão. Serve também para oferecer dicas à população sobre quem parece estar fazendo um trabalho mais interessante. No mundo hiper competitivo essa é a primeira leitura. Felizmente não é a única.

Há uma responsabilidade do poder público com essas placas. Há um Brasil empacado na escola. Os gestores desse sistema, a rigor, não precisam das placas para saber dos seus deveres.  Se não têm tempo em suas agendas, se esses conteúdos não estão cogitados, então é preciso reformar, primeiramente, seus pensamentos.

Não é possível educar sem se educar, já dizia Paulo Freire. Há um currículo de gestão que passa pela discussão das raízes… planos, investimentos, pacto federativo, formação profissional.
Mas se a questão ficar mesmo concentrada em torno da divulgação das notas do IDEB, pode-se fazer outra proposta: colocar uma placa bem grande em frente ao MEC, ao Congresso e à Alvorada mostrando a nota do Brasil ao mundo. Quem sabe assim, de placa em placa, a gente acaba enxergando o óbvio.

 *Assistente Parlamentar; Mestra em Gestão de Recursos Humanos; Ponto focal (Brasil) do UNITAR – United Nation Institute for Training and Research.

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