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Archive for abril \23\UTC 2014

Por Gerson Luis Carassai*

Ler é muito mais difícil e complexo do que imaginamos. O nosso objeto de leitura não está concentrado naquilo que chamamos de livro, no que entendemos como tarefa de casa ou ainda como aprofundamento teórico envolvendo o nosso campo de trabalho. Somos desafiados, a cada momento, a ler o mundo e, sem termos exercitado o olhar seletivo e crítico, corremos um grande risco de desempenharmos o papel de leitores leigos, ou ainda, de não leitores.

O apelo midiático é grande. O ataque é verbal e não verbal. O chamado social aparece pelas redes e, ampliando o significado da palavra, acabamos literalmente pescados, presos. A informação vem pelo rádio, pela televisão, pelo computador, pelo outdoor, pelo celular, pela janela do carro quando paramos no sinaleiro, pelas embalagens dos produtos em qualquer estabelecimento comercial e nosso discurso vai ganhando, cada vez mais, vocábulos contemporâneos. Nossas crianças e adolescentes recebem muita informação, mas não sabem ao certo como transformá-la em conhecimento. Respondem com facilidade a comandos claros, intuitivos, imperativos, mas se perdem frente a questões contextualizadas que exijam deles a tomada de decisões ou a resolução de situações-problema.

Pesquisas recentes levantaram dados coletados em avaliações de larga escala que comprovam que a maior dificuldade na resolução de questões matemáticas está relacionada à interpretação de texto. E é fato! Basta prestarmos atenção em qualquer avaliação desta disciplina que chegaremos às mesmas conclusões.

A geração da pressa, do intervalo, do tudo pronto, não tem exercitado a leitura tanto quanto deveria. Lê de forma fragmentada, em curtos espaços de tempo, intercalados ou em paralelo a outros estímulos visuais e sonoros. Lê sinopses e resumos divulgados na internet. Lê porque precisa ou porque vale nota. Não aprendeu a ler por prazer.

O conceito de leitura já foi ampliado e nos mostra que não basta ensinar a decodificar códigos, é necessário ensinar a interpretar os discursos trazidos pelo texto, seja ele verbal ou não verbal. Precisamos nos preocupar em qualificar, também de forma contemporânea, a leitura na escola e fora dela. A qualidade da leitura não cresce de acordo com a demanda de objetos a serem lidos e a prática da linguagem interpretativa precisa ser exercitada na mesma intensidade da oferta de leitura.

A criança lê o mundo desde que nasce e o prazer pela leitura deve ser cultivado. Então, neste ano, aproveitando a proximidade do dia 23 de abril que foi instituído pela UNESCO como o Dia Mundial do Livro, incentive o seu filho a encontrar na livraria ou na biblioteca pública, o livro que produza nele o encantamento necessário para provocar a frase “Eu quero esse!”. Ajude-o na escolha. Dê tempo para que folheie. Se você é professor, incentive o seu aluno a fazer um intercâmbio de livros, das histórias descobertas neles e das emoções sentidas a partir delas. Independentemente da idade que nossos filhos e que nossos alunos tenham, ainda podemos ensiná-los que, para conhecer o nosso mundo, precisamos aprender a ler e que, dentro dos livros existem outros mundos que só chegaremos a conhecer se tomarmos a iniciativa de abri-los.

*Gerson Luis Carassai é diretor geral do Colégio Marista Santa Maria, de Curitiba (PR), da Rede de Colégios do Grupo Marista.

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Políticas públicas para universalizar a rede de saneamento básico podem parecer invisíveis a priori, mas a sua não efetivação traz consequências graves tanto para a economia quanto para a saúde, diz administradora-executiva da Fundação Abrinq

Por Heloisa Helena de Oliveira*

Os indicadores sociais do Brasil têm melhorado nos últimos anos, mas ainda permanecem muito abaixo da média mundial. Para que a situação de pobreza no país melhore, é preciso investir nos indicadores sociais mais básicos e mais gritantes, como educação e saúde. Há, contudo, áreas de investimento que são invisíveis, mas que têm consequências nas políticas de base e que não são prioridades políticas por, justamente, não serem tão aparentes.

Relatório de pesquisa lançado pelo Instituto Trata Brasil e o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável mostrou a situação ainda precária que se encontra o saneamento básico no país. O Brasil encontra-se na 112ª posição no ranking de 200 países na lista de Índice de Desenvolvimento do Saneamento de 2011. O Brasil tem média (0,581) inferior à da América do Sul (0,594), e está logo acima dos sete países em pior situação. Ao mesmo tempo, nosso país é a 7ª maior economia do mundo.

A partir dos dados divulgados sobre saneamento no Brasil, é possível perceber a falta de investimentos no setor. O déficit de saneamento no Brasil em 2013 totalizou 14,3 milhões de moradias sem acesso à agua tratada e 35,5 milhões de moradias sem acesso à coleta de esgoto.

Em 2010, na região Nordeste, eram 13,5 milhões de moradias sem esgoto, o que representou 37,9% do total nacional. Em termos relativos, esse número atinge duas em cada três moradias da região. Para zerar o déficit de saneamento no Nordeste, estima- se que o investimento a ser feito giraria em torno de R$ 75,9 bilhões, o que corresponde a 13,7% do PIB da região. O volume de recursos financeiros necessários à universalização da coleta de saneamento no Brasil soma R$ 313,2 bilhões em valores de dezembro de 2013.

A questão, obviamente, não para por aí. A falta de saneamento acarreta diversas consequências para outros setores sociais e da economia. A saúde é, obviamente, não só a principal afetada como também a que sofre as consequências mais diretas. Em 2013, segundo informações do Datasus, foram notificadas mais de 340 mil internações por infecções gastrintestinais em todo o país. Metade desse total, ou seja, 170,7 mil internações, envolveu crianças e jovens até 14 anos.

O que chama mais a atenção é o fato de que a maior parte dessas internações ocorreu justamente nas áreas com menor acesso ao esgotamento sanitário: regiões Norte e Nordeste. No Norte do país, foram registradas 16,8% das internações, sendo que apenas 8,5% dos brasileiros vivem na região, demonstrando a situação alarmante. Vale destacar que no Norte está o pior déficit de saneamento do país: 93,2% das pessoas não tinham esgoto coletado em 2011 segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Saneamento (SNIS).

A falta de saneamento acarreta mais gastos públicos com a saúde, que poderiam ser dedicados à melhoria da situação de esgotamento sanitário. Calcula-se que tenham sido despendidos R$ 121 milhões no ano, apenas para tratar nos hospitais as pessoas infectadas.  A pesquisa estimou que a universalização do saneamento reduziria de 340 mil para 266 mil o número de internações por infecções gastrintestinais por ano, valor 22% inferior ao atual. Essa redução possibilitaria uma economia anual de R$ 27,3 milhões.

A desigualdade entre as regiões e até entre classes sociais em uma mesma cidade faz com que a falta de saneamento básico afete mais uns do que outros, individualmente. Quanto ao meio ambiente, essa questão afeta a todos, independentemente da classe social ou região em que mora. Rios, lagos, praias, terrenos e até o lençol freático são poluídos todos os dias pela falta ou irregularidade do esgotamento sanitário. A própria palavra “ecossistema” indica que se trata de diversas áreas interligadas. Se uma é afetada, todas as outras o são também.

Além das áreas de saúde, educação e meio ambiente – temas já suficientes para uma preocupação do poder público – custos com dias de afastamento de trabalho e até valorização imobiliária constam também no relatório. Tudo isso reforça o montante de despesas anuais com medidas paliativas, que focam a consequência do problema e não sua causa maior.

Não seria correto dizer que investimentos em saneamento básico não são realizados no país, eles são. Há 50 anos, apenas uma em cada três moradias estava ligada à rede geral de coleta de esgoto ou à rede fluvial. Já em 2010, a parcela das moradias cobertas com esse sistema passou para 55%. Os dados da última década, contudo, não são tão otimistas. O crescimento do número de acessos ficou abaixo da média histórica. O ritmo de expansão dos anos 2000 foi apenas 60% do registrado nos anos 1990 e menos de 40% do verificado nos anos 1970.

Políticas públicas de investimento no aumento e universalização da rede de saneamento básico podem parecer invisíveis a priori, mas a sua não efetivação traz consequências graves e muito concretas. É urgente o desenvolvimento de políticas mais rápidas e efetivas para esse e mais tantos outros problemas aparentemente imperceptíveis. Caso não sejam tomadas essas medidas, continuaremos tendo problemas nos órgãos que compõem o corpo do país. E, assim, o Brasil continuará doente.

* Economista, com MBA para Executivos e especialização em Governança Corporativa pela Universidade de São Paulo (USP), presidiu a Fundação Banco do Brasil e é a administradora executiva da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente.

 

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Por Miriam Bevilacqua*

Como a escola pode tornar um grande evento esportivo em um grande motivador da aprendizagem.

Desde o início do ano passado, as escolas têm discutido o calendário escolar em virtude da Copa do Mundo. Entretanto, passada essa fase, e com o ano letivo já a pleno vapor, é necessário pensar a Copa do Mundo como uma oportunidade de aprendizado para os nossos alunos. Como? As possibilidades são inúmeras. Mais que um tema transversal que pode abarcar várias disciplinas, a Copa aproxima o cotidiano ao estudo teórico tantas vezes distante do alunado.

A brazuca, a bola oficial do torneio, por exemplo, poderá sair rolando do gramado diretamente para uma aula de química. Qual o material por ela utilizado?Por que 437 gramas, nem mais nem menos? Ao que os nossos professores de física podem colaborar ajudando os alunos a pensar e calcular trajetórias da brazuca, e tantos outros aspectos físicos que uma atividade como o futebol proporciona.

E, se não existe futebol sem chute, qual professor de biologia não ficaria honrado de poder explicar os músculos em ação da perna do Neymar, comentando aquele gol espetacular que, mesmo sem fazer um exercício de futurologia, acreditamos que virá para a alegria geral da nação verde-amarela?

A temida matemática ficará muito mais simpática aos olhares escolares se fizer o cálculo da probabilidade do Brasil ser campeão. O cálculo do custo da construção de um estádio e da renda que cada jogo proporcionará ajudará nossos jovens a entender o tempo que será necessário para se pagar uma construção desse porte. As oportunidades de ensinar matemática a partir da Copa são quase tão infinitas como são os próprios números.

Enfim, não há componente curricular que não possa ganhar outro brilho com algo como o futebol, sempre nossa paixão nacional.

CONSCIÊNCIA CRÍTICA E VALORES

Que Brasil é esse que gasta milhões em uma Copa do Mundo, mas tem deficiências gravíssimas na saúde, na educação e em tantas outras áreas? Uma aula interdisciplinar de história, sociologia, filosofia poderia discutir profundamente a questão.

E a Copa pode ser apenas o pontapé inicial. A escola não pode ser uma ilha isolada do mundo ensinando conteúdos que não se renovam. Os componentes curriculares não podem ser caixas estanques que não conversam entre si e principalmente, não conversam com a realidade que os cerca. O docente deve buscar oportunidades de sempre relacionar o conteúdo de sua disciplina ao mundo que está à volta do aluno. Com certeza, fazendo relações relevantes, o aluno não mais perguntará “Para que eu aprendo isso?”

Se somos contra ou a favor da Copa é uma discussão que deveria ter sido feita previamente. Não foi o que aconteceu. E não adianta, neste momento, querermos impedir um evento mundial de proporções gigantescas. O que resta, principalmente para nós educadores, é explorar todos os aspectos possíveis em sala de aula. Se a Copa trará um grande prejuízo aos cofres públicos, pelo menos nossos alunos têm de sair ganhando e isso não depende de nenhum juiz e pode ser feito em muito mais do que 90 minutos.

*Miriam Bevilacqua é diretora geral do Colégio Marista Nossa Senhora da Glória, da Rede de Colégios do Grupo Marista.

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